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A Ordem dos Elementais_O Caos.

  • Foto do escritor: Ceres Margo
    Ceres Margo
  • 13 de fev. de 2020
  • 6 min de leitura

Capítulo 1

Os pequenos passos apressados da anciã ecoavam por todo o salão. As estatuas das suas antecessoras tinham um ar de estranha superioridade, com aquela mal iluminação, pareciam desaprovar seu comportamento. Ao decorrer do caminho um arrepio percorreu sua espinha. Um sopro de ar quente passou por sua nuca, como uma respiração. Tão perto de sua pele que temeu por sua vida, mas, o templo estava vazio. Mais vazio do que qualquer outro dia, geralmente teriam sacerdotisas, pessoas do conselho, antilianos comuns. Seja como for, sempre havia pelo menos mais de uma pessoa. Não hoje. Todos estavam em casa, temendo a ira dos Etéreos. As próprias estatuas do templo pareciam vazias. Apenas pedra sobre pedra.

Finalmente ela chegou nas escadas, o cheiro de lá era diferente. Terra molhada, cinzas e fumaça. A tocha iluminava pouco mais de quatros degraus a frente. Um passo em falso e seria uma longa descida pelo precipício, até os espinhos da terra perfurarem seu corpo. Ela desceu, um passo de cada vez. Durou quase três horas para ela chegar até o final.

Um pouco de sangue dos bebes, fogo e raechinea murgal foi tudo o que ela precisou para descobrir a vontade dos etéreos. Eles lhe mostraram o Caos. Ela previu as cidades em chamas. Terra e água se juntariam como um só. Os poucos sobreviventes estavam espalhados pelos planos temporais. De Antília, só restava fumaça e cinzas. Em pouco tempo não passavam de poeira estelar, ou de areia do outro lado do oceano. Antília estaria acabada.

A anciã se levantou e subiu as escadas. Sem tocha desta vez, o fogo já havia acabado a muito tempo.

**********

Alguns dias depois que o festival não aconteceu, Lia soube exatamente qual seria o próximo passo. Passaram apenas quatro noites depois. Ela estava na janela quando avistou o conselho em um barco, provavelmente o Pan, com os elementais do fogo iluminando o caminho. Conforme a chama tremeluzia, seus rostos ficavam oscilando entre luz e trevas. Lia tinha certeza que era mais trevas do que luz. Ela fechou a janela e se dirigiu ao quarto das gêmeas. Elas estavam dormindo abraçadas. Ficavam assim desde que nasceram. Poderiam ser descritas como inseparáveis. Ela se debruçou sobre o berço de mogno tentando memorizar cada detalhe de seus rostos, tentando encontrar alguma diferença entre as duas, além do cabelo. Jeff se aproximou lentamente para não acordar as crianças e a abraçou. Ele recostou a cabeça na curva do ombro e do pescoço de Lia e se permitiu esquecer a tragédia iminente. Ela fechou os olhos, querendo se esconder do mundo caso ela não conseguisse vê-lo.

“Respirei fundo. - Estão vindo buscar elas.

Jeff beijou meu ombro. Ele sempre faz isso quando eu estou preocupada e... pela primeira vez eu não me senti segura.

-É... eu sei.

-Quem nós... - minha voz começou a falhar quando os olhos marejaram – quem nós vamos entregar?

Foi mais assustador quando dito em voz alta. Fez tudo o que vai acontecer se tornar um pouco mais real. Meu coração pesou, tentei controlar as lagrimas para que não caíssem, mas, não durou muito.

-Não precisamos entregar ninguém – ele sussurrou em meu ouvido – você pode criar um túnel no espaço tempo enquanto eu os atraso. Posso trazer o céu até aqui, eu afogo eles e nos fugimos.

Eu dei um sorrisinho – gostei de imaginar um recomeço, mas, eu acho que elas não podem ficar juntas.

-A gente acha um planeta vazio. Quando elas fizerem 16 anos podem duelar até a morte e a gente fica com quem sobreviver.

-Você acha mesmo qu

-Olha lá, a Mika está sorrindo. Você gostou da ideia não é meu amor?

Por uma fração de segundos éramos uma família normal, acabamos nos esquecendo dos problemas. Alguns fios ruivos balançavam em sua testa e isso a fazia rir. Nubia estava segurando sua mão.

Três batidas na porta interromperam qualquer devaneio que pudéssemos ter. Jeff foi atender a porta e o quarto ficou um pouco mais frio.

-Oi, eu não esperava a visita do conselho tão tarde, aconteceu algum problema?

-Vamos deixar as formalidades de lado Jeff. Você sabe porque estamos aqui. - A voz da anciã estava meio rouca.

-Não tem mesmo outro jeito?

Ela suspirou. -Não, não tem. Essa é a melhor opção para Antília.

-É, nós sabemos. Lia e eu, nós não... escolhemos nenhuma, nós não... como vamos fazer isso?

-Eu entendo. Deixe essa decisão conosco. Onde elas estão?

-Por aqui.

Alguns passos começaram a se aproximar da porta. A anciã estava seguindo-o. Eu me afastei do berço, Jeff ficou ao meu lado. A anciã as olhou por um curto espaço e de tempo e simplesmente colocou uma fita vermelha na mão de uma das duas. Pareceu tão fácil para ela escolher qual das duas iria morrer.

-Vou dar um tempo para se despedirem. Recy virá buscá-la quando estiverem prontos.

Ela saiu do quarto sem nenhuma outra palavra. Jeff a pegou no colo e a abraçou como nunca mais abraçou ninguém. Era algo apenas para ela. Quando eu a segurei, pude sentir seu cheiro, me lembrava o verão.

-Eu amo você, por favor, por favor não se esqueça.

Na vida, existem poucas vezes em que minutos parecem horas e este foi uma dessas vezes. Despedidas sempre são eternas.”

Os três estavam abraçados quando Racy chegou. Com a iminente partida de sua irmã, a criança ainda no berço começou a chorar. Lia se ajoelhou, gritando, vendo sua filha partir aos berros. Jeff tentou acalmar as duas, mas, seu coração estava igualmente partido e não se pode ajudar ninguém assim.

Lia correu para o telhado. Ela tinha esperança de ver o barco retornar, do conselho mudar de ideia e deixa-la ficar com ela. Isso não aconteceu. Bom amigos, aquele bebe de apenas 6 semanas foi a pessoa mais nova a cumprir a pena de morte em todo o planeta. Quando chegaram ao templo, ela assistiu Acam chamar pelas águas. Um pequeno redemoinho estava se formando, indo em direção ao pátio daquela construção. Quando estivesse perto o suficiente, eles colocariam o bebe lá e ele seria sugado para as profundezas do oceano. No minuto que o redemoinho se desfizesse ela se afogaria. Seu corpo seria conduzido para o outro lado do oceano. Assistir à essa execução foi uma verdadeira tortura.

Jeff preferiu ficar no quarto até ter certeza de que tudo havia acabado. Sua filha dormiu em seus braços. Ele demorou um tempo para soltá-la, o sentimento de que a perderia também demorou um pouco a passar. Ele foi para a cozinha. Ficou sentado a mesa por um tempo, com um copo de Agnos na mão, a espera de Lia. Ele tentou se deitas, mas, tudo o que conseguiu foi rolar de um lado para o outro. Foi para o quintal, para o porão, para os fundos da casa. Os antilianos são monogâmicos, quando acham um parceiro é para a vida toda. Quando um morre, o seu parceiro também morre, com a diferença de um mês do seu amor. Era difícil para ele dormir sem Lia. Ela gostava de ficar sozinha quando estava triste, mas, desta vez, ela estava demorando mais do que o normal. Tinha se passado algumas horas quando ele subiu no telhado também.

Antes mesmo de chegar ao telhado o cheiro de jasmim o invadiu. A noite estava silenciosa agora, sem barcos, sem pessoas.

-Lia, eu estou subindo. Estou preocupado com você, podemos conversar se... LIA.

Ele correu em sua direção. Ela estava caída em direção a execução. A luz da estrela estava mais forte agora, os antilianos começariam a viver o dia. Ele colocou sua cabeça no seu colo.

-Por favor, fala comigo. Por favor... por favor. Eu não posso perder você também. LIA...LIA.

Algumas lagrimas caíram em seu rosto. Seu pulso estava fraco e a pele estava fria.

Conforme a luz alcançou o telhado ele pode perceber seu sangue escorrendo pelos olhos, ouvidos, nariz e boca. Um olhar de decepção apareceu em seu rosto.

Ele a levou para casa. Limpou seu rosto e a deixou descansar. Eles não saíram de casa aquele dia. A bebe não deu trabalho. De hora em hora ele aparecia no quarto para checar se Lia estava bem, se ainda estaria viva. Ele adormeceu na poltrona ao lado da cama, com a filha ainda em seus braços. Foi quando as primeiras luzes da tarde invadiram o quarto que ela abriu os olhos. Ela se levantou, confusa. Demorou alguns minutos para ela se recordar o que tinha acontecido.

-Jeff... Jeff, acorda.

Sua visão estava embaçada no início, a criança não estava mais em seu colo e Lia estava sentada na cama.

-O que foi que você fez?

-O quê? Eu não... eu não fiz nada Jeff.

-Quando eu cheguei no telhado você estava desmaiada. Eu quase não senti seu pulso, você estava sangrando. Isso só acontece quando um antiliano usa seus poderes até o seu limite, dependendo do caso pode até matá-lo. O QUE FOI QUE VOCE FEZ LIA?

-... Eu não... eu não tenho certeza.

-Você pode ter colocado todo o nosso povo em risco. O que você fez?

Ele se sentou na poltrona novamente e cobriu o rosto com as mãos. A exaustão pesou em seus ombros. Já fazia algum tempo em que ele não comia, dormia bem ou tomava água. Vivendo mais alguns dias assim seu corpo não aguentaria muito mais ficar em pé.

-Se eu te contar, você ainda vai me amar pela manhã?

-É impossível eu não amar você em algum momento da minha vida.

-Eu...


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