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Ele só queria ser amado.

  • 8 de abr.
  • 5 min de leitura

O grande titã da mitologia grega, Prometeu, ao desafiar Zeus, colocou em risco toda a nossa existência. Ao roubar o fogo sagrado e entregá-lo aos humanos, concedeu-lhes não apenas um recurso, mas o conhecimento necessário para o desenvolvimento da civilização. Como punição, Zeus o acorrentou a uma rocha, onde, diariamente, uma águia devorava seu fígado, que se regenerava continuamente. Prometeu foi condenado a uma existência paradoxal: incapaz de morrer, mas também de viver plenamente.


À primeira vista, essa parece apenas mais uma história cruel, como tantas outras presentes ao longo da história da civilização. Apesar de não estar diretamente relacionada, podemos analisar Frankenstein — ou O Prometeu Moderno — sob essa mesma ótica.





Parte 01

Victor Frankenstein, o verdadeiro monstro da narrativa, era um cientista brilhante, criado por pais amorosos e cercado por familiares e amigos que o amavam. Ainda jovem, perdeu a mãe, o que despertou nele uma obsessão pela morte e pelo conhecimento, especialmente pelas teorias de Cornélio Agrippa.


Mesmo ao ingressar na universidade e ter contato com colegas e professores que afirmavam que tais teorias estavam ultrapassadas, Victor recusou-se a abandoná-las. Durante os anos seguintes, dedicou-se obsessivamente a um único objetivo: encontrar a centelha da vida — aquilo que dá vida aos seres humanos. Seria possível reanimar um corpo morto? Talvez.


Em uma noite fatídica, Victor finalmente concluiu sua criação. Após violar túmulos e recolher partes de corpos, selecionando aquilo que considerava melhor, deu forma a um ser que, aos seus olhos, era monstruoso. No entanto, não percebeu a dimensão daquilo que estava criando. No instante em que a criatura ganhou vida, foi tomado pelo arrependimento.


Após o desaparecimento da criatura, chegou a acreditar que tudo não passara de um delírio. Victor adoeceu, permaneceu acamado por dias, consumido por febres e pesadelos terríveis.


A partir desse momento, nunca mais foi o mesmo. Sentia-se indigno de retornar para casa. Seu pai, já idoso, desejava vê-lo casar-se e formar uma família com Elizabeth, sua prima adotiva. Quando finalmente decidiu voltar, recebeu a notícia de que seu irmão mais novo havia sido brutalmente assassinado e que uma amiga da família fora acusada pelo crime. Convencido de que o verdadeiro culpado era a criatura, Victor retornou para casa, determinado a enfrentar as consequências de sua criação.


Ao longo da narrativa, é possível identificar paralelos com a tradição judaico-cristã. O arrependimento de dar vida à criação, o desejo de destruir aquilo que foi feito e até mesmo a relação de perseguição entre criador e criatura evocam esses elementos.


O fogo que Prometeu concedeu aos humanos não representa apenas a vida, mas também o conhecimento. Tradicionalmente, a chama está associada ao ardor, à inquietação, à vontade — à própria vitalidade humana. Além disso, o fogo proporcionou novas formas de sobrevivência: cozinhar alimentos, proteger-se do frio e, eventualmente, abandonar o nomadismo, dando início à formação das primeiras civilizações.

O verdadeiro “crime” de Prometeu foi conceder à humanidade não apenas a vida, mas o conhecimento.


Parte 02

Na segunda parte do livro, acompanhamos a narrativa da criatura, desde sua fuga até o momento em que encontra seu criador. Sua narrativa é profundamente poética. É como observar uma criança descobrindo o mundo — suas belezas e, inevitavelmente, suas crueldades. A criatura é forçada a se esconder dos humanos, que a temem e a perseguem.


Ao se abrigar próximo à casa de uma família que havia empobrecido, ela aprende a observar. Aprende a falar, a ler, a compreender conceitos como família, afeto, sociedade e amor. No entanto, sua experiência é marcada por uma angústia constante — um sentimento cuja origem ela própria não compreende. Essa angústia nasce do fato de sempre estar à margem. Para sempre, a criatura será a criatura, e os humanos continuarão sendo humanos. Sua existência é profundamente solitária.


Ao tentar compreender o mundo, ouve palavras como “demônio”, “inseto” e “criatura vil”, sem entender por que é tratada dessa forma — nem mesmo por seu próprio criador. Ainda assim, mesmo diante da rejeição, há nela um forte apego à vida. Mesmo sendo miserável, é a única vida que possui.

“Em toda parte vejo júbilo, do qual apenas eu fui irrevogavelmente excluído. Eu era benevolente e bom, mas a infelicidade transformou-me em demônio.”

Durante o período em que observa a família, o conhecimento adquirido faz com que volte seu olhar para si mesma: quem é? De onde veio? Quem a criou — e por quê foi rejeitada?

“Não sou capaz de descrever a agonia que tais reflexões me causaram [...] Ah, quem dera tivesse permanecido para sempre em minha floresta nativa, sem saber nem sentir nada além de fome, sede e calor!”

Em certos momentos, parece que a ignorância seria preferível ao sofrimento que o conhecimento traz.

“Deus, que é piedoso, fez o homem belo e atraente, à sua imagem. Minha forma, porém, é uma versão impura da tua [...] Eu, no entanto, sou solitário e abominado.”

Após encontrar seu criador, a criatura faz um pedido: que Victor crie alguém como ela — uma companheira. Assim como Adão teve Eva, ela também deseja não estar sozinha. Victor inicialmente recusa, mas passa a considerar a ideia.


Nesse ponto, é interessante estabelecer um paralelo com outras obras, como Poor Things, dirigido por Yorgos Lanthimos, e adaptações de Frankenstein, como a de Guillermo del Toro. Embora partam de propostas distintas, todas exploram, em alguma medida, a descoberta da vida. Na obra de del Toro, a criatura é mais sensível, buscando compreender emoções e relações humanas. Já em Poor Things, essa descoberta assume uma dimensão mais ligada à sexualidade e à experiência do corpo.


Esse contraste também permite refletir sobre processos de socialização: mulheres, historicamente, são incentivadas a expressar emoções e desenvolver sensibilidade, enquanto homens são frequentemente ensinados a reprimi-las e assumir posturas dominantes.


Retornando à análise, é possível perceber uma inversão: se antes Victor ocupava o papel de Prometeu, agora é a criatura que parece assumir essa posição. Ela se torna prisioneira de uma existência dolorosa — como se estivesse eternamente acorrentada, tendo seu “fígado” metafórico devorado dia após dia.


Parte 03

Por fim, Victor e a criatura entram em uma perseguição mútua. A criatura não é inocente — ao longo da narrativa, comete atos violentos. No entanto, o que desperta empatia é a consciência de que sua dor é permanente: rejeição, solidão e miséria a acompanham continuamente.


Victor, ao “brincar de Deus”, não apenas cria a vida, mas também abandona sua responsabilidade. Ele rejeita sua própria criação, negando-lhe não apenas afeto, mas até mesmo o direito de existir com dignidade.

Ambos estão feridos — não pelas mesmas razões, mas ligados pela mesma origem do sofrimento. Victor é responsável não apenas pela sua própria ruína, mas também pela destruição de sua família e pela condenação da criatura a uma existência miserável. Ainda assim, sequer foi capaz de conceder-lhe algo tão básico quanto um nome.


Nas linhas finais, Mary Shelley escreve:

“Não mais verei o sol e as estrelas, tampouco experimentarei a sensação do vento no rosto. Luz, sentimentos e sensações passarão, e assim encontrarei a felicidade.”

Há aqui uma mudança profunda: aquilo que antes seria motivo de desespero — a morte — torna-se consolo.


Considerações finais

A edição que li foi a da Pequena Companhia. Confesso que nunca tive grande interesse por Frankenstein, pois

o terror não costumava ser um gênero que me atraía. No entanto, após a leitura, a obra tornou-se uma das minhas favoritas.


A sensibilidade com que Mary Shelley aborda temas como humanidade, responsabilidade, conhecimento, religião e política é impressionante. Sua obra permanece extremamente atual — talvez mais relevante hoje do que nunca.


Posso dizer, com certeza, que este é um dos melhores livros que já li — e dificilmente deixará esse lugar tão cedo.


E você, ja leu essa obra prima? O que achou? me conta nos comentários e até o próximo post :)

 
 
 

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