top of page

Lars and the Real Girl

  • Foto do escritor: Ceres Margo
    Ceres Margo
  • 17 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

Craig Gillespie não conta apenas uma história, ele nos mostra um sentimento por trás dos filmes através de cenas tocantes e um humor seco, procedente de cenas absurdas, onde o absurdo produz o riso.


Craig é um Diretor Australiano, produzindo renomados filmes, como I, Tonya (2017) e também Cruella (2021). Entretanto, estou aqui hoje para falar de um filme um pouco mais antigo. Sendo lançado em 2007, Lars and the real girl foi um sucesso e ainda cativa espectadores nos dias de hoje. Apesar de ser lançado bem antes que eu tivesse alguma noção sobre cinema, posso afirmar que ele ainda causa impacto. 


Lars (Ryan Gosling) é um homem extremamente tímido e introvertido que mora na garagem do irmão mais velho Gus (Paul Schneider), e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Seu contato social se restringe ao trabalho e a igreja, sem manter um contato íntimo com outras pessoas. Após conhecer uma nova colega de trabalho que claramente tem um interesse romântico por ele, ele decide levar sua nova namorada para jantar na casa de seu irmão. 


Seu irmão e sua cunhada ficaram surpresos quando ao aparecer para jantar, Lars levou sua “namorada” Bianca, sendo ela uma boneca de plástico encomendada pelo correio. Lars jura de pé junto que Bianca é uma pessoa real, então o filme transcorre com Lars acompanhando Bianca em algumas consultas psiquiátricas e com toda a rede de apoio tratando Bianca como uma pessoa real. Ela tem a própria agenda, vai à festas, igreja, ao salão de beleza e ajuda a cuidar de crianças. Toda essa agenda acaba forçando Lars a sair de sua casca e socializar com toda aquela rede de apoio. 


A fotografia do filme é toda em tons frios, passando uma sensação de melancolia durante todo o

tempo. A atuação de Ryan Gosling foi impecável, você realmente consegue ver ele como um cara tímido e com uma leve fobia social. 


O filme me trouxe alguns questionamentos ao longo daquelas 1h42min.




1- como lidamos com nossos traumas e ansiedades? 

Acredito que Lars começou a ter essa ilusão de realidade quando ele começou a sentir uma pressão para ser “normal”. Não necessariamente uma pressão exterior, mas acredito que ele mesmo sabia que era diferente e tudo o que ele queria era ser normal e se relacionar com as outras pessoas, mesmo que extremamente desconfortável. A partir do momento que essa pressão interna aumentou ele precisou extravasar. 


Alguns pensamentos e traumas e tudo mais estão tão enterrados lá no fundo, tão intrínseco e escondido no nosso ser que nós tomamos algumas atitudes com base a esses traumas e nem sabemos o porque. algumas vezes escondemos tão bem que não temos a ciência das coisas que temos dentro de nós. Podemos até falar que não temos isso, não precisamos de ajuda, estamos bem, traumas não resolvidos sempre voltam para nos assombrar. 

 

Lars achou sua válvula de escape. Mesmo que no nosso caso não seja uma boneca, nós podemos encontrar meios de regular nossas emoções e promover o bem estar, principalmente tendo a ajuda de amigos e de um profissional. 



2- Como projetamos quem nos somos nos outros

Lars escondia quem ele realmente era, o que ele pensava, o que ele sentia. Ele escondia de todos, por medo talvez. Apesar de conhecer várias pessoas, poucos conheciam ele de verdade. Lars tinha medo não só desse contato social, mas de um contato mais profundo, onde ele ficaria em uma posição vulnerável, tendo que se mostrar completamente a outra pessoa. Sendo solteira na nossa sociedade atual, posso confirmar que isso é assustador. Conhecer alguém que vai valorizar quem se é dá trabalho, mas, viver fugindo e se escondendo dá mais trabalho ainda. 


Devido a seus problemas de socialização, Lars projetou em Bianca uma companheira perfeita, onde eles eram perfeitamente compatíveis, ela não discordava de nada, não dava sugestão de nada, não havia críticas, e nem diálogo. Apesar de Bianca não ser real, ao cuidar dela Lars teve que se abrir para a comunidade. Todas aquelas boas qualidades de Bianca eram, na verdade, de Lars. Mesmo que escondido, as pessoas conseguiam ver os traços, personalidade e qualidades tão intrínsecas a ele que, mesmo quando ele não estava presente, se manifestavam em Bianca. 


3- Como a timidez excessiva nos priva de viver a vida que sonhamos

Todo o filme gira em torno dessa “fobia social” que Lars tem, essa dificuldade em socializar e essa dor em se abrir para o próximo. Lars queria um relacionamento, queria amigos, uma família, uma comunidade e penso eu que acima de tudo ele queria ser “normal”. Ele queria que não fosse tão difícil e tão doloroso assim se aproximar das pessoas. Toda aquela vida que ele sonhava estava, na verdade, ao seu completo alcance. Essa timidez, vergonha, esse desconforto impedia ele de ter a vida que ele desejava. 


Por vezes eu já estive em lugares onde daria tudo para me fundir a parede e ficar invisível. Particularmente, não ligo de andar sozinha, mas a ansiedade de ter que conversar com alguém que não conheço, ou saber que vou ter que socializar com alguém durante aquele evento pode ser um pouco doloroso. Por vezes já deixei algumas oportunidades passarem por esse medo de ser vista, deixei de conhecer pessoas, aproveitar melhor certas experiências, fazer novas amizades, entre outros. Esse medo do mundo e das pessoas é necessário. É o medo que nos protege de nos machucar, mas quando ele nos domina, o medo vai impedir de você viver a vida que deseja. 


4- A dor de ser tocado e de ser visto 


Por fim, teve uma cena muito específica do filme que me fez chorar. Chorar de dor, de empatia, de tristeza. E foi uma cena tão simples, fui pega tão desprevenida que eu não poderia ter tido outra reação. Ao conversar com a psiquiatra, Lars conta que sente dor ao ser tocada. Inclusive ele usa várias camadas de roupa justamente para não ser tocado, para não sentir o contato com o outro. Algumas obras como “A cinco passos de você” já tratavam da importância do toque humano, por exemplo. 


Tenho certeza que após a pandemia, muitas pessoas também passaram a valorizar esse toque, um abraço, um beijo, um carinho. Lars sentia DOR ao ser tocado e isso me fez chorar. 

Ser quem se é pode parecer difícil. Ser visto, ser vulnerável, ser tocado por outro ser humano, mas, como escrito em A cinco passos de Você, precisamos ser tocados por quem amamos quase como precisamos do ar para respirar. Não tenha medo de ser quem se é. E caso ele apareça, não deixe o medo te privar de viver a vida que você quer. 







 
 
 

Comentários


Destaque

My Pink World
(Written by Phoebe Waller-Bridge)

© 2023 por Amante de Livros. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Google+ B&W
bottom of page